Avesso

Avesso
Um objeto descansa sobre a mesa
Seus cantos são afiados, lâmina virgem
Repousa plácido em tristeza vagarosa
Sentindo cegar-se como noite densa

Quebra-se o silêncio como um vaso azul
Mesa abaixo, ruído súbito
No chão, de pé, o punhal reflete o corpo
De uma vida violeta, fragrante feminescência

Sentindo-se acorrentada pela ilusão da dor
Tomou-lhe a mente os elos quebrar
Desesperada, ainda experimentava a culpa
Ao abandonar a dádiva de viver

Descia a cena um semblante mudo
Que apreciava a tudo, em quieto auspício
Seus olhos enuvesceram em melancolia
Tornando noite o coração outrora dia

Lágrimas deslizando em rios veiosos
No rosto necro-belo, de juventude macia
Manchas de lápis e maquiagem a tudo inundam
No alvorecer sem face, daquela Luz menina

A mão fria da Visitante Negra
Toca-lhe os lábios com um segredo cruel
“Não se pode fugir das correntes de uns,
sem nas de outros enfim descansar”.